SURF TRIP LITORAL SUL - Parte l

 

                      Havia pensado nessa viagem há muito tempo, mas a comodidade faz com que sempre procuremos ondas nos mesmos lugares. O projeto de fazer uma trip exploratória pelo litoral sul brasileiro e território Uruguaio foi tomando corpo nas rodas de conversa. Muitos não aceitaram a idéia, com a desculpa de que não queriam passar frio e nem surfar em água gelada. Levando em consideração esse fato, planejamos a viagem para o mês de janeiro, não visando a melhor época de ondas, mas sim a melhor temperatura para se fazer uma trip exploratória. Objetivo da viagem: catalogar informações precisas quanto os picos de surf do extremo sul do Brasil, desvendar o mistério das ondas Uruguaias e surfar em locais inóspitos. A viagem foi feita em um veículo 4x2, o que de certa forma restringe um pouco a chegada em picos alternativos.

 

            Estávamos prontos, eu e um amigo, Rogério Chimionato, empresário Curitibano. Os outros? Ficaram surfando as marolas crowndeadas do litoral paranaense. Dia 09 de janeiro foi o dia escolhido para a saída de Curitiba, na bagagem neoprenes de todos os tipos, duas longboards, duas pranchinhas, moletons, capas de chuva e muita disposição para enfrentar aproximadamente 4.000 km pelas estradas do sul.

 

            A primeira parada foi em Torres, primeiro balneário do litoral gaúcho indo no sentido sul, uma cidade bonita, com muitos atrativos naturais, altos visuais e boas ondas. A chegada foi em um calor insuportável, procuramos hospedagem, foi fácil de achar, há muita oferta. Conseguimos um hotel bom com preço honesto. Após descarregar tudo e bater um rango, fomos dar uma conferida nos picos. Era fim de tarde quando chegamos ao Parque Estadual da Guarita, onde se localiza a praia de mesmo nome. Por um momento fiquei de cara, quando tiro minha principal prancha da capa, ela tinha regredido, virou uma uva passa devido ao calor. Frustrante! Mesmo assim, fizemos um surf, mar de nordeste com meio metro crespo, não foi um dos melhores da vida, mas era melhor do que nada.

                       

                       No dia seguinte, 10, terça-feira, fizemos um surf nos molhes ao lado do Rio Mampituba, rio que divide os estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. As ondas vinham um pouco balançadas, mas tinham bom tamanho, cerca de meio metrão. Quebravam bem no outside abrindo as paredes durante um bom tempo. Pouco crowd e um sol escaldante marcaram a session. Uma boa manhã de surf. No período da tarde, pegamos a estrada em direção a uma fazenda à 100 km ao sul de Porto Alegre, onde iríamos conhecer uma plantação de arroz orgânico. No caminho entramos no Balneário Atlântida Sul para um check nas ondas. Decepção, marolas mexidas, continuamos na estrada. Uma chuva muito intensa fez com que desistíssemos da visita e continuássemos a trip. O ponto de parada foi no famoso Balneário do Cassino. Já no litoral sul gaúcho.

 

                        Após ter viajado mais de 500 km enfrentado um trânsito pesado, asfalto ruim, pedágios e outros imprevistos, finalmente chegamos ao Cassino. A cidade estava agitada, muitos turistas e preços altos foram o que chamou mais atenção. Depois de cerca de 2 hs procurando uma pousada simples e barata para apenas uma noite, achamos um hotel velho por R$ 30,00 a noite por pessoa, foi o melhor que conseguimos, e foi melhor do que cair num papo de um cara sinistro que insistiu em nos hospedar em uma casa podre.

 

                        O Balneário do Cassino é ao mesmo tempo interessante e ao mesmo tempo um lugar sem nada pra fazer, a praia é aberta e tem cerca de 250 km de areia até o arroio Chuí. Por ser aberta, dificilmente tem condições de surf, pois é suscetível a ventos e a fortes correntezas. Checamos pela manhã as condições, o vento encrespava as merrecas que chegavam fracas à praia. O jeito foi conhecer um navio naufragado na praia e andar de vagoneta, um carrinho movido a vento que anda em cima de trilhos num grande molhe.Como não havia perspectiva de melhoria nas condições do mar, resolvemos mais uma vez seguir estrada. Agora com o objetivo de entrar no Uruguai neste mesmo dia.

 

                        Tivemos uma tarde agradável na estrada, uma reta de mais de 200 km que corta a reserva ecológica do Taim nos leva ao fim do Brasil, chegando no Chuí, como de costume fomos checar as ondas e conferir as condições. Já soubemos de relatos de boas ondas na fronteira  Brasil-Uruguai. Não havia swell, tiramos umas fotos, pois é um lugar histórico e com uma beleza exótica. A cidade do Chuí, é como qualquer cidade de fronteira, feia e sem dono, com a malandragem correndo solta. Fizemos o câmbio e vazamos em direção à alfândega.

                       

                        Apresentamos os documentos, registramos nossa entrada no país e voltamos para a estrada. As estradas uruguaias são muito boas, bem sinalizadas, sem radar e sem pedágio, sonho? Não realidade de um país pobre e vizinho do Brasil. Em 20 km dentro do solo Uruguaio já temos o primeiro pico de surf, La Coronilla, praia extensa, com dunas e sem proteção de vento. Neste pico tinha uma queda força-barra, porém resolvemos checar outros picos próximos.

                       

                        Seguindo algumas dicas de um site internacional de surf, o próximo pico era dentro de um Parque Nacional controlado pelo Exército, o Parque Nacional Santa Tereza. Dentro do Parque encontra-se cerca de cinco picos diferentes e o maior camping do mundo. Depois de certo sufoco para achar um lugar para nossa barraca no meio de cinco mil pessoas, conseguimos um bom lugar com excelentes vizinhos, brasileiros e uruguaios. As ondas não estavam boas e a noite chegava, resolvemos organizar nossas coisas e descansar.

 

                        Já no quarto dia de viagem, acordamos cedo ansiosos pelas ondas. Demos uma queda em um pico chamado Las Achiras, meio metro, um pouco de vento que não atrapalhava na formação das ondas, apenas uns três surfistas na água. Fiz a cabeça, peguei muitas ondas, os surfistas uruguaios são ruins, não se posicionam de maneira adequada e fazem manobras desajeitadas. Foi um bom surf, a água não era tão gelada com pensávamos, surfei com um short free e lycra, o sol ajudava a manter o calor do corpo. No período da tarde a condição piorou sensivelmente com a entrada de um forte vento leste.

 

                        Dia 13, quinta-feira, fizemos um surf em outra praia, La Moza. Meio metro mexido, com um vento gelado, alguns poucos se aventuravam na água. Sempre vale dar uma queda. Esse pico tem um forte potencial quando um forte swell de sul ou sudoeste encosta, geralmente acontece isso nos meses de inverno. O pico tem uma semelhança com o Pico de Matinhos no Paraná.

 

                        No próximo dia, acordamos cedo e conferimos as condições. La Moza, mexida, Las Achiras e Cerro Chato ondas pequenas, não eram boas opções. Olhamos uma praia perto, Punta Del Diablo, também não estavam lá!! Resolvemos seguir adiante e explorar outra região, seguíamos agora sentido oeste na costa do Uruguai. Por enquanto não tivemos sorte de pegar um bom swell, mas coletamos várias informações importantes para uma próxima trip.

 

                        Desbravar lugares, rumar ao desconhecido, surfar ondas diferentes, fazer contato com pessoas com outra realidade em relação ao mundo, trocar experiências, acordar sem saber onde vai dormir, comer algumas coisas que você não gosta muito. Isto tudo trás conhecimento, bagagem, desenvolvimento pessoal e muito mais. Tudo isso devemos ao surf !

Maurício Bastos / Stem Winder